
{"id":130425,"date":"2023-09-12T00:06:00","date_gmt":"2023-09-12T03:06:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.largadoemguarapari.com.br\/13largado\/?p=130425"},"modified":"2023-09-11T14:40:08","modified_gmt":"2023-09-11T17:40:08","slug":"seu-jose-e-dona-maria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.largadoemguarapari.com.br\/13largado\/seu-jose-e-dona-maria\/","title":{"rendered":"SEU JOS\u00c9 E DONA MARIA"},"content":{"rendered":"\n<p>Quem assistiu a \u2018Escolinha do Professor Raimundo\u2019 (1990\u20131995) deve se lembrar que o personagem de Chico Anysio chamava seus alunos com <a><\/a>\u2018seu\u2019 e \u2018dona\u2019 ante o nome: Seu Boneco, Seu Peru, seu Sandoval Quaresma, Dona Bela, Dona Cacilda, dona Catifunda. Esse h\u00e1bito est\u00e1 cada vez mais sumido.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cBom dia, seu Pedro! Como vai o senhor?\u201d \u201cOl\u00e1, dona L\u00facia! Vou enviar a encomenda para a senhora.\u201d N\u00e3o se usa mais falar assim para demonstrar respeito e urbanidade? N\u00e3o sei lhe dizer o fim dessa hist\u00f3ria, mas posso lhe contar o in\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Na Antiguidade, casa era chamada de \u2018domus\u2019 em latim. O chefe do \u2018domus\u2019 era o \u2018dominus\u2019 (pronuncia-se \/d\u00f4minus\/) e sua esposa era a \u2018domina\u2019. Alguns imperadores romanos, como Diocleciano, chegaram a usar \u2018Dominus\u2019 como um t\u00edtulo honor\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o Jer\u00f4nimo, ao passar a B\u00edblia para o latim, traduziu a palavra hebraica \u2018\u05d9\u05d4\u05d5\u05d4\u2019 (YHWH; pronuncia-se \/jau\u00e9\/) como \u2018Dominus\u2019. Por sinal de respeito, ainda nos prim\u00f3rdios do cristianismo, bispos e papas tamb\u00e9m eram tratados por \u2018dominus\u2019. Na Idade M\u00e9dia, o termo era usado para reis, nobres do alto escal\u00e3o, senhores feudais, cavaleiros e todo tipo de gente importante.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2018Dominus\u2019 evoluiu para \u2018domnus\u2019 ainda no latim. No portugu\u00eas arcaico, ficou como \u2018donno\u2019, o que nos gerou o nosso atual \u2018dono\u2019 (propriet\u00e1rio). Por similar processo, \u2018domina\u2019 virou \u2018dona\u2019; em franc\u00eas, se tornou \u2018dame\u2019, o que nos ficou como \u2018dama\u2019. O franc\u00eas \u2018ma dame\u2019 (minha senhora) formou \u2018madame\u2019 e o italiano \u2018ma donna\u2019 , ficou \u2018madona\u2019 para n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro caminho que \u2018dominus\u2019 tomou na evolu\u00e7\u00e3o da l\u00edngua foi ser reduzido a \u2018dom\u2019. Por isso, temos o par \u2018dom\u2019 e \u2018dona\u2019. Assim como o \u2018Dominus\u2019 dos romanos, os t\u00edtulos honor\u00edficos \u2018Dom\/Don\u2019 e \u2018Dona\/Donna\u2019, eram usados como tratamento da gente da nobreza e do clero onde hoje s\u00e3o Portugal, Espanha, Fran\u00e7a e It\u00e1lia. Essa tradi\u00e7\u00e3o se estendeu ao Brasil, onde passaram nobres como Dom Jo\u00e3o IV, Dom Pedro I, Dom Pedro II, Dona Teresa Cristina e a princesa Dona Isabel. Veja que as mulheres, por terem menos destaque no sistema mon\u00e1rquico, geralmente s\u00e3o citadas sem o \u2018Dona\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o fim da monarquia em 1889, Dom ficou mais restrito aos sacerdotes cat\u00f3licos, como, por exemplo, Dom Bosco (padroeiro de Bras\u00edlia) e Dom Orani Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro. J\u00e1 \u2018Dona\u2019 se popularizou e passou a ser um tratamento dado \u00e0s consideradas \u2018mulheres de respeito\u2019, ou seja, \u00e0s casadas, \u00e0s vi\u00favas e \u00e0s religiosas. \u00c9 por isso que a Maria, ao se casar com o Jos\u00e9, costumeiramente era tratada por Dona Maria.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 que Dom ficou com os membros da Igreja, o tratamento respeitoso aos homens veio de outra palavra que, em sua origem, equivalia a \u2018dominus\u2019. Voltemos \u00e0 Idade Antiga.<\/p>\n\n\n\n<p>Em latim, \u2018senex\u2019 significa \u2018velho\u2019. De \u2018senex\u2019, temos o comparativo \u2018senior\u2019, que significa \u2018o mais velho\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois que os lombardos conquistaram a regi\u00e3o norte da pen\u00ednsula It\u00e1lica, no s\u00e9culo VI, algo dos costumes de chefia mudou por l\u00e1. Quando um \u2018dominus\u2019 lombardo repartia suas terras entre seus filhos, o governo do lugar era concedido ao mais velho, chamado \u2018senior illius loci\u2019 (o mais velho do lugar). A partir de ent\u00e3o, \u2018dominus\u2019 e \u2018senior\u2019 foram se tornando sin\u00f4nimos.<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma que \u2018dominus\u2019 virou \u2018dom\u2019, \u2018senior\u2019 passou a \u2018senhor\u2019 e, com o tempo, acabou sendo atribu\u00eddo como forma de tratamento aos homens em geral. A partir de \u2018senhor\u2019, vieram as formas \u2018senhora\u2019 (o equivalente a \u2018dona\u2019) e \u2018senhorita\u2019 (mo\u00e7a solteira).<\/p>\n\n\n\n<p>Um tant\u00e3o de termos foram derivados de \u2018senhor\u2019 e \u2018senhora\u2019, especialmente durante a escravid\u00e3o brasileira. De \u2018senhora\u2019, tivemos: \u2018sinhara\u2019, \u2018sinh\u00e1\u2019, \u2018si\u00e1\u2019 e \u2018s\u00e1\u2019; de \u2018sinh\u00e1\u2019 surgiram \u2018nhanh\u00e1\u2019, \u2018iai\u00e1\u2019 e \u2018nh\u00e1\u2019. De \u2018senhor\u2019, surgiram \u2018sinh\u00f4, \u2018s\u00f4\u2019, \u2018nh\u00f4\u2019, \u2018nhonh\u00f4\u2019 e \u2018ioi\u00f4\u2019. Os filhos dos senhores eram tratados pelos escravos como \u2018sinh\u00f4-mo\u00e7o\/sinh\u00e1-mo\u00e7a\u2019 e \u2018sinhozinho\/sinhazinha\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 a\u00ed que voc\u00ea se lembra do romance \u2018Sinhazinha\u2019 (1929), de Afr\u00e2nio Peixoto; das novelas \u2018Sinh\u00e1 Mo\u00e7a\u2019 (1986 e 2006) e da \u2018Sinhazinha Fl\u00f4\u2019 (1977). Espantosamente, muitas festas juninas ainda realizam o concurso da Sinhazinha e do Sinhozinho. <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"16\" width=\"16\" alt=\"\ud83e\udd37\" src=\"https:\/\/static.xx.fbcdn.net\/images\/emoji.php\/v9\/tf5\/1\/16\/1f937.png\"\/><\/p>\n\n\n\n<p>Mas como esse nomes tiveram forte liga\u00e7\u00e3o \u00e0 vida do campo e aos escravocratas, seu uso ficou mais restrito \u00e0s cidades do interior e a maioria desapareceu. Nos grandes centros, o que vingou foi outro derivado de \u2018senhor\u2019, \u2018seu\u2019, muito influenciado pelo pronome \u2018seu\u2019. Assim, homens \u2013 casados ou n\u00e3o \u2013 costumavam levar o tratamento \u2018seu\u2019 ante o nome ou o of\u00edcio: Seu Jorge, Seu Barriga, seu delegado, seu guarda.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2018Seu\u2019 e o feminino \u2018sua\u2019 tamb\u00e9m s\u00e3o usados com outros sentidos diversos. Podem ser empregados com valor afetivo (\u201csua linda!\u201d \u201cseu bobinho&#8230;\u201d), de forma jocosa (dizendo a uma crian\u00e7a que bagun\u00e7ava: \u201cBonito, hein, seu Rafael!\u201d) ou at\u00e9 depreciativa (\u201cseu burro!\u201d, \u201csua tonta\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, boa parte da popula\u00e7\u00e3o tem associado \u2018seu\/dona\u2019 e \u2018senhor\/senhora\u2019 a \u2018velho, idoso\u2019. H\u00e1 quem tamb\u00e9m entenda que se trata de um formalismo desnecess\u00e1rio. Por isso, esses termos t\u00eam deixado de figurar nas boas maneiras. At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, ningu\u00e9m com mais de 30 anos se incomodava em ter um desses tratamentos. Jovens casadas de 19 anos eram \u2018senhoras\u2019 e estava tudo bem. Hoje, muita gente at\u00e9 se ofende ao ser chamada de \u2018senhor\/senhora\u2019. Retrucam: \u201cSenhora est\u00e1 no C\u00e9u!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"16\" width=\"16\" alt=\"\ud83d\udcda\" src=\"https:\/\/static.xx.fbcdn.net\/images\/emoji.php\/v9\/t49\/1\/16\/1f4da.png\"\/> Refer\u00eancia: \u2018Vocabulario latino &amp; portuguez\u2019, por Raphael Bluteau (1728); e \u2018Dicion\u00e1rio Houaiss\u2019 (2009).<\/p>\n\n\n\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"16\" width=\"16\" alt=\"\ud83d\udcf8\" src=\"https:\/\/static.xx.fbcdn.net\/images\/emoji.php\/v9\/tde\/1\/16\/1f4f8.png\"\/> Figura: \u2018G\u00f3tico Americano\u2019 (1930), de Grant Wood.<\/p>\n\n\n\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"16\" width=\"16\" alt=\"\ud83d\udde3\ufe0f\" src=\"https:\/\/static.xx.fbcdn.net\/images\/emoji.php\/v9\/tfb\/1\/16\/1f5e3.png\"\/> Sugest\u00e3o: Felipe Moreira.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/scontent-gru1-2.xx.fbcdn.net\/v\/t39.30808-6\/375921302_607839191536986_5381420874991475854_n.jpg?stp=dst-jpg_p526x296&amp;_nc_cat=1&amp;ccb=1-7&amp;_nc_sid=5614bc&amp;_nc_eui2=AeGgafsrGD_2xNFL9ZK1g3W_RxdAHlk2MAxHF0AeWTYwDKbwtEiZxj8RS3Ayzn4RuP9miHN9oVim-dbKXO8zPTyK&amp;_nc_ohc=vCAU_JymGkkAX-vcqOq&amp;_nc_ht=scontent-gru1-2.xx&amp;oh=00_AfBLNp9d7B9TkBU94vrWAdIDhyc_vnmMWM-ZwKwSU01SeA&amp;oe=6503C204\" alt=\"Pode ser uma imagem de 2 pessoas e texto que diz &quot;@0 Dona Maria e seu Jos\u00e9 Por que usamos 'seu' e 'dona'?&quot;\"\/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem assistiu a \u2018Escolinha do Professor Raimundo\u2019 (1990\u20131995) deve se lembrar que o personagem de Chico Anysio chamava seus alunos com \u2018seu\u2019 e \u2018dona\u2019 ante o nome: Seu Boneco, Seu Peru, seu Sandoval Quaresma, Dona Bela, Dona Cacilda, dona Catifunda. 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