
{"id":72471,"date":"2018-11-04T01:08:34","date_gmt":"2018-11-04T03:08:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.largadoemguarapari.com.br\/13largado\/?p=72471"},"modified":"2018-11-04T06:26:30","modified_gmt":"2018-11-04T08:26:30","slug":"sobre-anjos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.largadoemguarapari.com.br\/13largado\/sobre-anjos\/","title":{"rendered":"SOBRE ANJOS  &#8211; Gustavo De Almeida"},"content":{"rendered":"<div id=\"id_5bde0d06d60d95813046879\" class=\"text_exposed_root text_exposed\">Quando eu estava no jornal EXTRA, l\u00e1 pelos idos de 1999, estourou a macabra hist\u00f3ria do Anjo da Morte, o enfermeiro Edson Izidoro Guimar\u00e3es, que \u201capressava\u201d a morte de pacientes no Hospital Municipal Salgado Filho para ajudar agentes funer\u00e1rios e tamb\u00e9m poss\u00edveis traficantes de \u00f3rg\u00e3os (minha mem\u00f3ria n\u00e3o permite saber se essa hist\u00f3ria se confirmou) \u2013 uma pessoa doente mas com um f\u00edgado<span class=\"text_exposed_show\">\u00a0em bom estado tinha a morte acelerada por obra do insano enfermeiro. Cobri por algumas semanas, pois quem chegava de manh\u00e3 tinha que come\u00e7ar a correr atr\u00e1s das su\u00edtes. Passei dias no Salgado Filho, \u00e0s vezes sem render nenhuma mat\u00e9ria relevante, vez ou outra conseguindo falar com algum parente de v\u00edtima.\u00a0<\/span><\/div>\n<div class=\"text_exposed_root text_exposed\"><span class=\"text_exposed_show\">A hist\u00f3ria, terr\u00edvel, me causou um trauma que me levou, um ano depois, a pedir para colocar na minha carteira de identidade a anota\u00e7\u00e3o \u201cn\u00e3o doador de \u00f3rg\u00e3os\u201d.<\/span><\/div>\n<div><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-72472 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.largadoemguarapari.com.br\/13largado\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/anjos.jpg\" alt=\"\" width=\"602\" height=\"451\" \/><\/div>\n<div><\/div>\n<p><!--more--><\/p>\n<div><\/div>\n<div class=\"text_exposed_root text_exposed\"><span class=\"text_exposed_show\">V\u00e1rias pessoas na \u00e9poca assim fizeram \u2013 o governo passou a permitir que as pessoas optassem no RG para o caso de faleceram em via p\u00fablica e n\u00e3o terem parentes por perto. Como eu havia perdido minha primeira via da identidade e precisei fazer outra, resolvi fazer isso, com o temor de que o caso do Anjo da Morte n\u00e3o fosse algo pontual e sim sistem\u00e1tico. Parecia cr\u00edvel que a m\u00e1fia dos \u00f3rg\u00e3os corrompesse enfermeiros. E mais cr\u00edvel ainda que os agentes funer\u00e1rios, gente com quem convivi no in\u00edcio da carreira (em 1994, quando comecei, era normal ficarmos com eles na porta do IML), for\u00e7assem essa barra.<br \/>\nSempre me deu certa vergonha exibir a carteira com a inscri\u00e7\u00e3o. Tanto que em muitos lugares apresento a carteira da FENAJ (que vale como identidade em qualquer estado do Brasil). Mas os dias e os anos iriam me provar que o general George Smith Patton Junior, comandante de um ex\u00e9rcito americano na Segunda Guerra, estava certo: \u201cN\u00e3o se aconselhem com seus receios\u201d.<br \/>\nNa semana que antecedeu este Dia dos Mortos, o mundo real me esbofeteou por eu ter feito essa carteira de identidade. E explico por qu\u00ea. Tem a ver com um casal do Esp\u00edrito Santo.<br \/>\nRosi era casada com S\u00e9rgio h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas. Escrevo \u201cd\u00e9cadas\u201d porque realmente n\u00e3o sei o tempo de casamento e esta, creiam-me, n\u00e3o \u00e9 uma boa hora para perguntar. O casal comemorava a gravidez de uma das filhas, uma netinha estava para chegar, mas infelizmente, pelo menos no mundo do lado de c\u00e1, um deles n\u00e3o chegaria a conhece-la.<br \/>\nH\u00e1 coisa de dois ou tr\u00eas meses, Rosi teve um AVC, foi socorrida rapidamente, mas ainda ficou com algumas sequelas. No dia do AVC, ela demonstrou confus\u00e3o mental, e S\u00e9rgio, extremamente perspicaz, socorreu imediatamente, levando-a a um hospital. Liberada alguns dias depois, a vida seguiu normal at\u00e9 o dia 28 de outubro, dia da elei\u00e7\u00e3o no segundo turno.<br \/>\nS\u00e9rgio havia me dito, em um grupo do qual fa\u00e7o parte, em quem ele votaria. Mas acabou n\u00e3o votando. O que me espanta \u00e9 como o voto fica, nesta hist\u00f3ria, reduzido a uma dimens\u00e3o t\u00e3o real: uma gota em um oceano, algo sem a m\u00ednima import\u00e2ncia.<br \/>\nPor favor: n\u00e3o estou desdenhando da democracia. S\u00f3 estou dizendo, com efeito, que saber qual o voto de S\u00e9rgio, que acabou n\u00e3o acontecendo, n\u00e3o tem a menor import\u00e2ncia. Rosi, no dia da elei\u00e7\u00e3o, teve outro AVC. S\u00e9rgio a levou de novo ao hospital, mas l\u00e1 os m\u00e9dicos disseram aquela frase que nos mergulha no abismo: \u201cN\u00e3o h\u00e1 mais o que fazer\u201d.<br \/>\nRosi estava em coma, sedada, e s\u00f3 restava esperar.<br \/>\nNo dia seguinte, algu\u00e9m no grupo (sim, de WhatsApp) pergunta por Rosi.<br \/>\n&#8211; Rosi se foi. Estou sem ch\u00e3o.<br \/>\n\u00c9 praticamente imposs\u00edvel dizer alguma coisa que atenue \u2013 mas n\u00e3o dizer nada \u00e9 pior. Mandamos nossas mensagens. Pensamos na tristeza da fam\u00edlia, na dor, no desalento de n\u00e3o poder ir ao vel\u00f3rio para amparar nosso \u201cirm\u00e3o\u201d que conhecemos h\u00e1 15 anos, todo dia falando no mesmo grupo (primeiro de e-mail, depois de whatsapp).<br \/>\nMas o sepultamento s\u00f3 aconteceria dois dias depois.<br \/>\nSim: S\u00e9rgio e sua fam\u00edlia mantiveram Rosi sem sepultamento porque era da vontade de todos eles que os \u00f3rg\u00e3os fossem doados. A fam\u00edlia, em meio \u00e0 dor, se manteve firme esperando, at\u00e9 que todos os tr\u00e2mites burocr\u00e1ticos fossem feitos.<br \/>\nOs rins de Rosi salvaram a vida de duas pessoas no Esp\u00edrito Santo. As c\u00f3rneas v\u00e3o trazer a luz a algu\u00e9m em S\u00e3o Paulo. O cora\u00e7\u00e3o de Rosi bate neste momento dentro do peito de um carioca, carioca tal e qual seu marido. O f\u00edgado ainda seria analisado, mas possivelmente j\u00e1 salvou a vida de algu\u00e9m neste Dia dos Mortos.<br \/>\nS\u00e9rgio estava em prantos quando fez este relato, mas \u00e9 poss\u00edvel que neste momento, neste mundo em que a \u00fanica luta \u00e9 entre trevas e luz, ele tenha sido iluminado. N\u00e3o sei a religi\u00e3o dele, mas a t\u00f4nica do Cristo \u00e9 basicamente ajudar o pr\u00f3ximo, ajudar quem est\u00e1 perto, ajudar o desconhecido. Rosi salvou pelo menos quatro desconhecidos e a um quinto deu a vis\u00e3o.<br \/>\nO que faz uma fam\u00edlia desejar com tanta for\u00e7a salvar o pr\u00f3ximo, ajudar um completo desconhecido, \u00e9 um grande mist\u00e9rio de F\u00e9 para mim, algo que me faz olhar com vergonha absoluta para a minha rid\u00edcula carteira de identidade, constru\u00edda pelo medo, esse sentimento que parece um pouco primo do ego\u00edsmo e filho da falta de f\u00e9. O que faz uma fam\u00edlia prolongar o sofrimento, aumentar a espera por um sepultamento, pela obstina\u00e7\u00e3o em ajudar o pr\u00f3ximo \u00e9 um mist\u00e9rio absoluto \u2013 mas um mist\u00e9rio necess\u00e1rio, uma f\u00e9 da qual precisamos, todos.<br \/>\nO que \u00e9 encantador numa hist\u00f3ria t\u00e3o triste: princ\u00edpios, nunca prop\u00f3sitos. Claro, h\u00e1 o prop\u00f3sito de ajudar o estranho \u2013 mas este nasce do princ\u00edpio de que se exerce o amor ao pr\u00f3ximo e a solidariedade de forma incondicional. Os princ\u00edpios s\u00e3o inegoci\u00e1veis, imut\u00e1veis \u2013 os prop\u00f3sitos sim, \u00e9 que mudam ao longo da vida, \u00e0 medida que se conhece o mundo real, o mundo tang\u00edvel, onde o que se v\u00ea n\u00e3o s\u00e3o sombras na caverna, mas pessoas com hist\u00f3ria e sofrimentos. E quando encontramos pessoas com princ\u00edpios, \u00e9 a vida nos avisando que tudo pode ser melhor, que estamos aqui por um motivo. Rosi teve duas filhas, formou uma bela fam\u00edlia, j\u00e1 teria sua presen\u00e7a na Terra justificada. Mas ajudar e salvar o pr\u00f3ximo, ter respeito, entender o que \u00e9 importante, nada disso pode ser deixado de lado. E ela e S\u00e9rgio entenderam isso at\u00e9 o fim.<br \/>\nA hist\u00f3ria, no fim das contas, me lembrou a famosa entrevista da Madre Teresa de Calcut\u00e1, citada por Matheus de Castro em um brilhante artigo sobre o Natal \u2013 um rep\u00f3rter pergunta o que precisa melhorar no mundo, e Madre Teresa responde:<br \/>\n&#8211; Voc\u00ea e eu.<br \/>\nS\u00e9rgio e Rosi me disseram, com todo amor do mundo, que eu \u00e9 que preciso melhorar. Agrade\u00e7o, muito, pela revela\u00e7\u00e3o. Que Deus os acompanhe.<\/span><\/div>\n<div id=\"fbPhotoSnowliftCTMButton\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando eu estava no jornal EXTRA, l\u00e1 pelos idos de 1999, estourou a macabra hist\u00f3ria do Anjo da Morte, o enfermeiro Edson Izidoro Guimar\u00e3es, que \u201capressava\u201d a morte de pacientes no Hospital Municipal Salgado Filho para ajudar agentes funer\u00e1rios e tamb\u00e9m poss\u00edveis traficantes de \u00f3rg\u00e3os (minha mem\u00f3ria n\u00e3o permite saber se essa hist\u00f3ria se confirmou) [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":10,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[],"class_list":["post-72471","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-editorial"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.largadoemguarapari.com.br\/13largado\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72471","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.largadoemguarapari.com.br\/13largado\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.largadoemguarapari.com.br\/13largado\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.largadoemguarapari.com.br\/13largado\/wp-json\/wp\/v2\/users\/10"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.largadoemguarapari.com.br\/13largado\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=72471"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.largadoemguarapari.com.br\/13largado\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72471\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":72475,"href":"https:\/\/www.largadoemguarapari.com.br\/13largado\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72471\/revisions\/72475"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.largadoemguarapari.com.br\/13largado\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=72471"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.largadoemguarapari.com.br\/13largado\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=72471"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.largadoemguarapari.com.br\/13largado\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=72471"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}