
{"id":91631,"date":"2020-02-05T00:06:33","date_gmt":"2020-02-05T03:06:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.largadoemguarapari.com.br\/13largado\/?p=91631"},"modified":"2020-02-04T09:50:01","modified_gmt":"2020-02-04T12:50:01","slug":"piso-de-caquinhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.largadoemguarapari.com.br\/13largado\/piso-de-caquinhos\/","title":{"rendered":"PISO DE CAQUINHOS"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.largadoemguarapari.com.br\/13largado\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/26994357_959932114164980_7701760787832432126_n.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-91632\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p> Pode algo quebrado valer mais que a pe\u00e7a inteira? Aparentemente n\u00e3o. Mas no Brasil j\u00e1 aconteceu isto, talvez pela primeira vez na hist\u00f3ria da humanidade. Vamos contar esse mist\u00e9rio.<br \/>Foi na d\u00e9cada de 40 \/ 50 do s\u00e9culo passado. Voltemos a esse tempo. A cidade de S\u00e3o Paulo era servida por duas ind\u00fastrias cer\u00e2micas principais. Um dos produtos dessas cer\u00e2micas era um tipo de lajota cer\u00e2mica quadrada (algo como 20x20cm) composta por quatro quadrados iguais. Essas lajotas eram produzidas nas cores vermelha (a mais comum e mais barata), amarela e preta. Era usada para piso de resid\u00eancias de classe m\u00e9dia ou com\u00e9rcio. <\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>No processo industrial da \u00e9poca, sem maiores preocupa\u00e7\u00f5es com qualidade, aconteciam muitas quebras e esse material quebrado sem interesse econ\u00f4mico era juntado e enterrado em grandes buracos.<br \/>Nessa \u00e9poca os chamados lotes oper\u00e1rios na Grande S\u00e3o Paulo eram de 10x30m ou no m\u00ednimo 8 x 25m, ou seja, eram lotes com \u00e1rea para jardim e quintal, jardins e quintais revestidos at\u00e9 ent\u00e3o com cimentado, com sua mon\u00f3tona cor cinza. Mas os oper\u00e1rios n\u00e3o tinham dinheiro para comprar lajotas cer\u00e2micas que eles mesmo produziam e com isso cimentar era a regra.<br \/>Certo dia, um dos empregados de uma das cer\u00e2micas e que estava terminando sua casa n\u00e3o tinha dinheiro para comprar o cimento para cimentar todo o seu terreno e lembrou do refugo da f\u00e1brica, caminh\u00f5es e caminh\u00f5es por dia que levavam esse refugo para ser enterrado num terreno abandonado perto da f\u00e1brica. O empregado pediu que ele pudesse recolher parte do refugo e usar na pavimenta\u00e7\u00e3o do terreno de sua nova casa. Claro que a cer\u00e2mica topou na hora e ainda deu o transporte de gra\u00e7a pois com o uso do refugo deixava de gastar dinheiro com a disposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora a hist\u00f3ria come\u00e7a a mudar por uma coisa linda que se chama arte. A maior parte do refugo recebida pelo empregado era de cacos cer\u00e2micos vermelhos mas havia cacos amarelos e pretos tamb\u00e9m. O oper\u00e1rio ao assentar os cacos cer\u00e2micos fez inserir aqui e ali cacos pretos e amarelos quebrando a monotonia do vermelho cont\u00ednuo. \u00c9, a entrada da casa do simples oper\u00e1rio ficou bonitinha e gerou coment\u00e1rios dos vizinhos tamb\u00e9m trabalhadores da f\u00e1brica. Ai o assunto pegou fogo e todos come\u00e7aram a pedir caquinhos o que a cer\u00e2mica adorou pois parte, pequena \u00e9 verdade, do seu refugo come\u00e7ou a ter uso e sua disposi\u00e7\u00e3o ser menos onerosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o belo \u00e9 contagiante e a solu\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a virar moda em geral e at\u00e9 jornais noticiavam a nova mania paulistana. A classe m\u00e9dia adotou a solu\u00e7\u00e3o do caquinho cer\u00e2mico vermelho com inclus\u00f5es pretas e amarelas. Como a procura come\u00e7ou a crescer a diretoria comercial de uma das cer\u00e2micas descobriu ali uma fonte de renda e passou a vender, a pre\u00e7os m\u00f3dicos \u00e9 claro pois refugo \u00e9 refugo, os cacos cer\u00e2micos. O pre\u00e7o do metro quadrado do caquinho cer\u00e2mico era da ordem de 30% do caco integro (caco de boa fam\u00edlia).<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 aqui esta historieta \u00e9 racional e l\u00f3gica pois refugo \u00e9 refugo e material principal \u00e9 material principal. Mas n\u00e3o contaram isso para os paulistanos e a onda do caquinho cer\u00e2mico cresceu e cresceu e cresceu e , acreditem quem quiser, come\u00e7ou a faltar caquinho cer\u00e2mico que come\u00e7ou a ser t\u00e3o valioso como a pe\u00e7a integra e impoluta. Ah o mercado com suas leis il\u00f3gicas mas implac\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>Aconteceu o inacredit\u00e1vel. Na falta de caco as pe\u00e7as inteiras come\u00e7aram a ser quebradas pela pr\u00f3pria cer\u00e2mica. E \u00e9 claro que os caquinhos subiram de pre\u00e7o ou seja o metro quadrado do refugo era mais caro que o metro quadrado da pe\u00e7a inteira\u2026 A desculpa para o irracional (!) era o custo industrial da opera\u00e7\u00e3o de quebra, embora ningu\u00e9m tenha descontado desse custo a perda industrial que gerara o problema ou melhor que gerara a febre do caquinho cer\u00e2mico.<\/p>\n\n\n\n<p>De um produto economicamente negativo passou a um produto sem valor comercial a um produto com algum valor comercial at\u00e9 ao refugo valer mais que o produto original de boa fam\u00edlia\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria termina nos anos sessenta com o surgimento dos pr\u00e9dios em condom\u00ednio e a classe m\u00e9dia que usava esse caquinho foi para esses pr\u00e9dios e a classe mais simples ou passou a ter lotes menores (4 x15m) ou foram morar em favelas.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o hist\u00f3rias da vida que precisam ser contadas para no m\u00ednimo se dizer:<br \/>\u2014 A arte cria o belo, e o marketing tenta explicar o mist\u00e9rio da pe\u00e7a quebrada valer mais que a pe\u00e7a inteira\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pode algo quebrado valer mais que a pe\u00e7a inteira? 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