28 de fevereiro

Foi tudo muito rápido.

A executiva bem-sucedida sentiu uma pontada no peito, vacilou, cambaleou. Deu um gemido e apagou-se.

Quando voltou a abrir os olhos, viu-se diante de um imenso Portal.

Ainda meio tonta, atravessou-o e viu uma miríade de pessoas. Todas vestindo largos camisolões e caminhando despreocupadas.

Sem entender bem o que estava a acontecer, a executiva bem-sucedida abordou um dos passantes:

– Enfermeiro, eu preciso voltar com urgência para o meu escritório, porque tenho uma reunião importantíssima. Aliás, acho que fui trazida para cá por engano, porque o meu seguro de saúde é Platina, e isto aqui está parecemdo-me mais a urgência dum Hospital público.

Onde é que nós estamos? 

– No céu. – No céu?…

– É.  – O céu, CÉU….?! Aquele com querubins, anjinhos e coisas assim?   

– Exato! Aqui vivemos todos em estado de graça permanente. Apesar das óbvias evidências, ausência de poluição, toda a gente sorrindo, ninguém usando celular, a executiva bem-sucedida levou tempo a admitir que havia mesmo batido as botas.

Tentou então o plano B: convencer o interlocutor, por meio das infalíveis técnicas avançadas de negociação, de que aquela situação era inaceitável.

Porque, ponderou, dali a uma semana iria receber o bónus anual, além de estar fortemente cotada para assumir a posição de presidente do conselho de administração da empresa.

E foi aí que o interlocutor sugeriu:

– Talvez seja melhor a senhora conversar com Pedro, o coordenador.  

– É?! E como é que eu marco uma audiência? Ele tem secretária? 

– Não, não. Basta estalar os dedos e ele aparece.

Assim? (…) – Quem me chama? A executiva bem-sucedida quase desabava da nuvem. À sua frente, imponente, segurando uma chave que mais parecia um martelo, estava o próprio Pedro. Porém, a executiva tinha feito um curso intensivo de approach para situações inesperadas e reagiu logo:

– Bom dia. Muito prazer. Belas sandálias. Eu sou uma executiva bem-sucedida e…

– Executiva… Que palavra estranha. De que século veio?

– Do XXI. O distinto vai dizer-me que não conhece o termo ‘executiva’?  

– Já ouvi falar. Mas não é do meu tempo. Foi então que a executiva bem-sucedida teve um insight. A máxima autoridade ali no paraíso aparentava ser um zero à esquerda em modernas técnicas de gestão empresarial. Logo, com seu brilhante currículo tecnocrático, a executiva poderia rapidamente assumir uma posição hierárquica, por assim dizer, celestial ali na organização.

– Sabe, meu caro Pedro. Se me permite, gostaria de lhe fazer uma proposta. Basta olhar para essa gente toda aí, só na palheta e andando à toa, para perceber que aqui no Paraíso há enormes oportunidades para dar um upgrade na produtividade sistémica.

– É mesmo?

– Pode acreditar, porque tenho PhD em reorganização. Por exemplo, não vejo ninguém usando identificação. Como é que a gente sabe quem é quem aqui, e quem faz o quê? 

– Ah, não sabemos.

– Percebeu? Sem controle, há dispersão. E dispersão gera desmotivação. Com o tempo isto aqui vai acabar em anarquia. Mas podemos resolver isso num instante implementando um simples programa de targets individuais e avaliação de performance. 

– Que interessante…

– É claro que, antes de tudo, precisaríamos de uma hierarquização e um organograma funcional, nada que dinâmicas de grupo e avaliações de perfis psicológicos não consigam resolver.

– !!!…???…!!!…???…!!!

– Aí, contrataríamos uma consultoria especializada para nos ajudar a definir as estratégias operacionais e estabeleceríamos algumas metas factíveis de Alavancagem financeira, maximizando, dessa forma, o retorno do investimento do Grande Accionista… Ele existe, certo? 

– Sobre todas as coisas.

– Ótimo. O passo seguinte seria partir para um downsizing progressivo, encontrar sinergias high-tech, redigir manuais de procedimento, definir o marketing mix e investir no desenvolvimento de produtos alternativos de alto valor agregado. O mercado telestérico, por exemplo, parece-me extremamente atrativo.

– Incrível!

– É óbvio que, para conseguir tudo isso, teremos de nomear um board de altíssimo nível. Com um pacote de remuneração atraente, é claro. Coisa assim de salário de seis dígitos e todos os fringe benefits e mordomias da praxe. Porque, agora falando de colega para colega, tenho a certeza de que vai concordar comigo, Pedro. O desafio que temos pela frente vai resultar num turnaround radical.

– Impressionante!

– Isso significa que podemos partir para a implementação?  

– Não. Significa que a senhora terá um futuro brilhante… se for trabalhar com o nosso concorrente. Porque acaba de  descrever, exatamente, como funciona o Inferno…


Largado por Zoto | largados comentaram ( 2 ) | Visualizações: 148


2 respostas para “É VELHA, MAS É BOA”

  1. Anõnimo disse:

    B.B.diria: a pensar que li isso tudo.

  2. Anõnimo disse:

    completando:Miríade é um numeral de origem grega significando dez mil. A palavra em língua portuguesa provém do francês myriade, derivada do latim medieval myrias ǎdis e, este, do grego myriás – ádos. Na língua portuguesa, além do significado original pode.
    hihihi

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